Peça inspirado na obra de Ailton Krenak marca a Mostra Cênica Resistências nesta quarta

‘Ideias para Adiar o Fim do Mundo’, protagonizado por Yumo Apurinã, tem sessão gratuita às 20h, no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto

Em seu segundo dia de programação, nesta quarta (13/5), a 7ª edição da Mostra Cênica Resistências segue com espetáculos, ação formativa e bar cultural, tudo com entrada gratuita. Um dos destaques é o espetáculo Ideias para Adiar o Fim do Mundo, inspirado em obras, falas e na trajetória do líder indígena e membro da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak. A apresentação é às 20h, no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto, com ingresso gratuito retirado 1h antes no local e acessibilidade em Libras.

“Somos mesmo uma humanidade?”. Essa é a pergunta que ecoa no palco do espetáculo, que é protagonizado por Yumo Apurinã, com direção de João Bernardo Caldeira. Inspirada também na trajetória do ator, a peça revisita o tratamento dado pelo Brasil ao povo indígena ao longo de sua história. 

Em cena, Yumo conta sua própria história. O ator vive no Rio de Janeiro e nasceu na Aldeia Mawanaty, terra indígena situada em Rondônia, na Amazônia Legal, onde foi criado sob a evangelização e o apagamento da sua cultura. Tentando reconstruir sua relação com a ancestralidade, enfrenta, no cotidiano, estereótipos persistentes: “Você é índio de verdade? Come carne de macaco? Por que não está na sua aldeia?”.

“Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não caibo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”, afirma Yumo.

Em um planeta marcado por forças como tiro, boi, cimento e cruz, a peça evidencia a violência fundadora do Estado brasileiro: a distinção entre corpos considerados civilizados e aqueles historicamente destinados ao apagamento, à expropriação e à morte.

Crise ambiental
Até a Constituição de 1988, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados “relativamente incapazes”. A obra recupera esse processo histórico e evoca o gesto de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte de 1987, quando pintou o rosto de preto em protesto contra o retrocesso nos direitos indígenas.

O espetáculo evidencia como processos de extermínio, etnocídio e devastação ambiental seguem em curso, atravessados pelas mesmas forças que moldaram o país. “A crise ambiental é também uma crise de imaginação. O teatro pode nomear e preencher ideias que vão se esvaziando, como ‘crise climática’ e ‘colonização’, até perdermos a relação com essas catástrofes. Não existe floresta sem os povos que nela habitam. Reflorestar o imaginário é ampliar horizontes, mas também uma forma de reparação”, explica o diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira.

Para Yumo Apurinã, o espetáculo Ideias para Adiar o Fim do Mundo surge a partir de uma escuta coletiva: “Se eu busco adiar o meu próprio fim todos os dias, minha primeira tarefa é estar presente. Quando escuto Krenak, sei que estou ouvindo muitas outras vozes de sábios e parentes. Quando estou em cena, minha mãe, meu pai e meus antepassados estão ali. Nunca estamos sozinhos”.

Histórico do espetáculo
O espetáculo estreou com temporadas de ingressos esgotados no Rio de Janeiro, nos teatros Futuros e Municipal Sérgio Porto. Integrou ainda o 14º Festival Interculturalidades, em Niterói, e o 3o Festival Amir Haddad. A convite das ONGs La Clima e File Foundation, foi selecionado para integrar a programação da COP 30, em Belém do Pará, no âmbito do ‘Dia da Justiça Climática’, ampliando sua circulação para o circuito internacional de debates sobre crise do clima, territórios e direitos dos povos originários.

Mais programação
A Mostra Cênica Resistências também chega a Ibirá nesta quarta. A Cia Bambolina (Paraguaçu Paulista, SP) apresenta O Mundo em Extinção na sede da Cia. Arte das Águas.

Dentro do eixo ações formativas, em São José do Rio Preto tem bate-papo com o grupo Clowns de Shakespeare (Natal, RN), após exibição do documentário sobre sua trajetória, intitulado Um Filme sem Fim, na sede do Polo Audiovisual do Noroeste Paulista.

E a partir das 22h, acontece a primeira noite de programação no ponto de encontro da mostra, o Contramão Bar Cultural, no Clube do Lago, com Baile do Kayque. Ao final do baile, há discotecagem de Kayque fechando a noite. A classificação indicativa do ponto de encontro é a partir de 18 anos e não há necessidade de retirada de ingresso.

Sobre a mostra
Criada e produzida pelo coletivo teatral rio-pretense Cênica desde 2014, a Mostra Cênica Resistências neste ano se constrói sob o encontro e a ideia de que resistir é também tecer caminhos coletivos. Esta 7ª edição é realizada por meio do Edital Fomento CultSP PNAB nº 39/2024 – Fomento à Economia Criativa, com apoio do British Council, Sesc Rio Preto, Sesi, Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São José do Rio Preto (SSPM), Centro Cultural Vasco e Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto por meio da Secretaria de Cultura.

A mostra segue até dia 16, sábado, com um total de 14 espetáculos, que contemplam teatro adulto e para crianças, dança, circo e uma obra em realidade virtual, além de atividades formativas e ponto de encontro, ocupando nove espaços de São José do Rio Preto. As atividades também chegam a Bady Bassitt, Ibirá, Mirassolândia e Nova Granada. Toda a programação é gratuita.  

7ª MOSTRA CÊNICA RESISTÊNCIAS
12 a 16 de maio de 2026 – São José do Rio Preto e região
Programação completa: https://cenica.com.br
Gratuito

Foto: Natalia Tupi/Divulgação

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