Confira a apetitosa crônica Rua da Gordice

BEM PENSADO

Confira a apetitosa crônica Rua da Gordice

Se um amigo pedir conselho, direi com tranquilidade: quando estiver perdido na rua, peça informação a um gordinho. Isso mesmo.

Não existe pessoa mais qualificada para lembrar a localização exata daquela viela ou casa escondida que nem GPS de última geração ou morador antigo são capazes de encontrar.

Gordinho, como eu, tem parte diferenciada no cérebro que é ativada, como um Google da comida, toda vez que recebe informações genéricas, como gastronomia, boa mesa, arte de comer, regabofe, almoço e merenda, e mais específicas, entre as quais conosquinhos, profiterole, vaca atolada, sarapatel, pato no tucupi, amanteigados, peixe assado na folha de bananeira, quebra queixo, acepipe, petisco e caldinho de feijão.

Não há segredo.

O cidadão bem nutrido tem o poder de observar estabelecimentos que vendem alimentos, mesmo que somente uma vez, de soslaio ou relance. Registra em seu repertório a posição exata de cada ponto. Assim, cria invejável banco de dados sobre a geografia da cidade, mesmo que gastronômica. Falo com conhecimento de causa, tanto como informante como contumaz perdido. Da última vez que aconteceu, não encontrei o endereço nem com ajuda de carteiro. Já pensava em desistir, quando, não mais que rapidamente, surgiu do outro lado da rua a salvação.

– Amigo, como faço para chegar na rua dos Pintassilgos?

Sem cerimônia, foi bem didático na resposta.

– Está vendo o prédio do Habib’s? Vá até lá e ande mais quatro quarteirões. Nesse caminho, vai passar por casa de bolo, dois botecos, sacolão e loja de esfirra. Quando avistar a barraca de frutas, vire à direita. No quarteirão, tem uma mulher que vende bala de coco, que são, diga-se, uma delícia. Conte seis casas. A última delas abriga um restaurante de comida japonesa. Está perto do seu destino, mas não chegou ainda. Se apertar o passo, terá tempo de ver a feira. Ande mais 200 metros. A rua que procura fica entre a padaria e o açougue.

Agradeci a gentileza com palavras que não lembro. E deixei a visita para outro dia.

Fui comer pastel e tomar guaraná.

Texto do jornalista, poeta e cronista da página Crônicas da Vida Moderna Raul Marques

01/06/2016

01/06/2016 14:41

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *