Sabia que eu te amo?

Crianças são capazes de romper barreiras, amolecer corações e criar conexões e vínculos profundos. O avô da Maya não é das pessoas mais sensíveis. Fruto de uma criação em que pai e mãe mandavam e ele obedecia, demonstrar afeto não era comum.

Dia desses, logo após ver o avô, do nada, no meio da cozinha e de maneira natural, ela falou: “vovô, sabia que eu te amo?” Ele, que estava ocupado com algo, parou o que estava fazendo, olhou pra ela e paralisou. Eu assisti a cena e não interferi. Ele virou para mim e perguntou: “que foi que ela disse?” Eu respondi: “ela disse exatamente o que o senhor ouviu, que ela te ama”. Tomei minha água e deixei ele digerir a informação.

“vovô, sabia que eu te amo?”

“Nossa, fui pego “disprivinido!”, disso o avô na tentativa de sair da cena com uma gracinha. Mas, seus olhos cheios de lágrimas denunciavam que a declaração tinha atingido em cheio seu coração. Maya, depois de disparar uma flecha sem nem saber, saiu da cozinha e logo partiu para alguma brincadeira. 

O avô ficou na cozinha, coçou a cabeça, passou a mão nos olhos e seguiu com o dia. Não teve resposta.  Mas, não precisava. O avô, que vem de um modelo antigo de criação, não tem o hábito de falar dos sentimentos, passou a mesma criação para os filhos, seguindo o modelo conhecido, como fazemos em muitas situações. Na minha casa também não era comum. A minha geração ainda não falava de sentimentos com os pais com facilidade. 

Hoje, ao ver minha filha falar para o avô que o ama, sem um pretexto para isso, de maneira tão natural e genuína me mostra que estamos no caminho certo. Essa nova geração pode romper modelos e mostrar que o melhor caminho é o do amor, sem a reprodução dos pais distantes. Sem criar a relação de poder e dominação. Depende de nós, pais, ajudar a próxima geração a ser mais sensível e empática. 

Maya, sabia que eu te amo um tantão assim? E abro os braços numa tentativa frustrada de mostrar o tamanho do amor que sinto por ela. Ela abre um sorriso e me abraça. Vamos fazer uma nova história juntas?

Texto: Bruna Oliveira @brunamamaesincera

.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *