O sinal do intervalo toca, e os estudantes deixam a sala para ocupar o pátio, que rapidamente se enche de conversas e brincadeiras. À medida que se espalham pelo espaço, um padrão de comportamento vai se consolidando, quase como uma regra silenciosa a seguir: enquanto as meninas tendem a se posicionar nas laterais, os meninos ocupam o centro e dominam a maior parte das áreas de lazer da escola.
Trata-se de um cenário perturbador revelado pelo estudo “Girls Just Wanna Have Fun” da organização Perkins&Will, lançado em 2025. O documento conclui que os garotos têm maior liberdade no ambiente escolar, enquanto as garotas ficam restritas aos “cantos”. O mesmo padrão de hierarquia de gênero ocorre em outros ambientes, como no profissional, no lar e, especialmente, nas redes sociais.
“De um tempo para cá, as mulheres vêm se empoderando e ocupando espaços, um movimento alguns homens não acompanharam. Ao contrário, muitos se mobilizam para impedir o avanço feminino. Ou seja, quando uma menina busca acessar um espaço, seja uma quadra ou o pátio da escola, ela acaba sendo rechaçada ou mesmo agredida”, reflete a professora do Grupo Eureka Márcia Pereira, doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A educadora observa que essas reações sempre existiram, mas, hoje, cada vez mais homens passam a se declarar abertamente misóginos e tal comportamento chega a ser “premiado” com views e engajamento nas redes sociais. Outra novidade é o ingresso de pessoas mais jovens na “machosfera”, conjunto de comunidades na internet formadas por homens que compartilham discursos de ódio contra as mulheres.
Esse interesse da geração mais nova é mostrado no documentário Por Dentro da Machosfera e pelo livro Lost Boys: A Personal Journey Through the Manosphere / Garotos Perdidos: Uma Jornada Pessoal Pela Machosfera (em tradução livre).
“Como boa parte do recrutamento para esse movimento contra as mulheres é de adolescentes, não basta a escola fazer uma palestra ou os professores falarem sobre o tema. É necessário ir além, e trabalhar a cultura, a linguagem, a atitude e as relações dos estudantes dentro da unidade de ensino”, explica Márcia.
Nessa tarefa, a educadora destaca oito propostas para gestores escolares adotarem na escola como forma de evitar comportamentos violentos de garotos contra garotas.
Educação e conscientização desde cedo: inserir, já na educação infantil, a importância da integração de gênero, garantindo que meninos e meninas participem de todas as atividades oferecidas pela pré-escola ou pelas creches.
Formação de professores: capacitar os docentes para trabalhar as relações de gênero em sala de aula e apoiá-los na mediação e resolução de conflitos no ambiente escolar.
Intervenções imediatas e consistentes: orientar os profissionais da educação a manter atenção constante a episódios de violência física e verbal contra meninas, evitando que essas práticas sejam naturalizadas na escola.
Revisar materiais didáticos: assegurar que apostilas e conteúdos (textos e imagens) não reproduzam preconceitos de gênero, além de incentivar a criação de materiais que fortaleçam a autoestima das meninas e evidenciem sua participação em diferentes espaços.
Criação de um ambiente seguro: estabelecer regras de convivência que protejam as crianças e impeçam a reprodução de discursos de ódio contra as mulheres. Em salas ou espaços onde as meninas são minoria, é fundamental a presença atenta de um adulto responsável, garantindo um ambiente acolhedor e seguro.
Projetos e campanhas escolares constantes: desenvolver iniciativas pedagógicas que incentivem o protagonismo dos estudantes, conforme previsto nos documentos orientadores e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Essas ações favorecem maior integração, respeito entre os alunos e o engajamento em campanhas de combate à violência contra diferentes grupos sociais.
Envolvimento da comunidade escolar: promover a escuta ativa das famílias, criando espaços de diálogo sobre os principais desafios do território, e fortalecer as práticas pedagógicas com a participação e a legitimidade dos responsáveis.
Incentivo ao protagonismo feminino: estimular e valorizar a formação de lideranças femininas, incentivando a participação das alunas em grêmios estudantis, cursos técnicos, especialmente nas áreas de tecnologia, e em atividades extracurriculares como futebol, basquete, vôlei, xadrez, dança, teatro, entre outras práticas.
Produções audiovisuais
O documentário Por dentro da Machosfera, lançado recentemente na Netflix, é mais uma produção audiovisual que mostra como esse comportamento é recebido pelo público mais jovem. Em 2025, a série Adolescência também levantou um denso debate ao retratar um garoto de 13 anos que, exposto a conteúdos online misóginos e influenciado por figuras controversas, é levado a cometer um ato de violência com sua colega de escola.
ECA Digital
Outro avanço significativo apontado por Márcia é a recente regulamentação do ECA Digital, que amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. Apesar da relevância do novo marco, é fundamental que essas diretrizes sejam incorporadas ao cotidiano escolar por meio da mediação de docentes e gestores escolares.
“É importante que todas essas novidades dialoguem com as realidades dos estudantes. Hoje temos ferramentas que apoiam os professores, mas como elas estão sendo trabalhadas pelas equipes pedagógicas?”, questiona a especialista.
O ECA Digital também estabelece responsabilidades para as plataformas digitais, determinando que as empresas ajam com rapidez diante da disseminação de conteúdos violentos e adotem medidas para restringir o acesso de crianças às redes sociais.
Foto: Reprodução


